20/09/2018 às 22h40min - Atualizada em 20/09/2018 às 22h40min

O YouTube dominou banalidades; agora, quer entrar em searas mais sérias

Em evento pomposo, executivos do site e youtubers não paravam de repetir três palavras: “conhecimento”, “notícias” e “diversidade”. O que se quer com isso?

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Youtube/Divulgação
Os colossos da indústria digital sabem fazer show. Ontem (19), o YouTube (de propriedade do Google, vale lembrar) exibiu essa força no Brasil, com seu Brandcast. No evento, shows de Caetano Veloso, Iza, Rudy Mancuso e Anitta. No palco a coisa toda soava, numa primeira observação superficial, a algo como “olha como somos fodas e fazemos dinheiro paca”. A ideia era vender ainda mais a plataforma para anunciantes e criadores de conteúdo, os youtubers. Mas isso só numa primeira olhada. Na real, o que se queria era mostrar para onde o YouTube quer levar a internet – sem exagero aqui, visto que hoje em dia para a maioria do público a antes tão variada web se restringe a Google, YouTube, Twitter, WhatsApp, Instagram, uns joguinhos, uns apps de paquera e, quando a coisa aperta na vida, o Linkedin.

Para exibir sua potência, o YouTube despejou uma penca de informações suntuosas entre Caetano cantando “Odara”, Gretchen rebolando ao som de Katy Perry e Anitta com seu “Vai Malandra”. As conclusões são das mais óbvias a quem está minimamente conectado com o mundo. O tempo dedicado por brasileiros a assistir vídeos online aumentou 135% em quatro anos, sendo agora de mais de 19 horas semanais – muito pouco atrás das 24 horas por semana vendo TV. Hoje, Globo e YouTube praticamente empatam como principal meio usado para assistir a algo – e a tendência é que o segundo logo pegue distância graúda da primeira.

No entanto, o que mais importa é a mensagem que se passou sutilmente, quase como um toque subliminar por trás de números e cantorias. Em apresentações no palco, executivos da empresa e youtubers não paravam de repetir as palavras “conhecimento”, “notícias” e “diversidade”. Por quê?

Nos anos anteriores, o YouTube se destacou como meio de entretenimento. Também passou a dominar a vida dos mais jovens, que praticamente não mais atentam à TV. Com música, vídeos de games, vlogs e muita banalidade, passou a controlar, ao lado de parcos rivais como Facebook e Instagram, um aspecto essencial de nossa vida: o fútil.

Só que o site quer ir muito além disso. Frente à crescente fragilidade da mídia tradicional diante das tantas transformações digitais que ocorreram na última década, o YouTube ambiciona dominar também o meio de conteúdo pago (não parava de destacar que brasileiros estão abertos a arcar mais por algo de maior qualidade) e, na repetição das palavras, do “conhecimento”, das “notícias” e da “diversidade”.

Não à toa, em plena época de eleições extremamente polarizadas, destacou Tropicália no palco, ressaltando o movimento como de determinante oposição à ditadura militar no Brasil. Aí surgiu Caetano fazendo dueto com Iza numa versão atualizada – inclusive, por meio do uso de um software de inteligência artificial do Google – de “Divino Maravilhoso”, cujo simbólico refrão clama “não temos tempo de temer a morte”.

Teve também a jornalista e apresentadora Ana Paula Padrão, ressaltando parcerias do YouTube com a Band. Tanto em algo, digamos assim, meio sério, meio divertido, como o MasterChef. Quanto como com algo bem sério, mas nada divertido, como o debate dos presidenciáveis, que passou ao mesmo tempo no YouTube e na TV. Esteve no tablado ainda Nathalia Arcuri. Ela uma jornalista de TV que se encontrou (com muita eficácia e sucesso indiscutível) no YouTube falando de economia.

Com isso, evidenciou-se a diretriz de apostar em notícias, na tentativa de firmar parcerias com “gente séria”. E quem não entrar no jogo? Ficou claro que a mensagem é: “se não nos der uma mão nessa, seu destino será se destruir, sumir”.

Na parte de “conhecimento”, o YouTube ressaltou como a página é usada por quem busca saber mais de matemática, física, gastronomia etc. Não se trata só de diversão. Mas também de educação, de se aprimorar.

Já por “diversidade”, entende-se que o site quer servir de megafone para as variadas vozes da sociedade. Discurso bonito, sim. Mas também aí se pensa no chamado de “pink money” – o alto poder de compra da comunidade GLBT.

E é difícil não ver ironia quando a youtuber Gabi Oliveira, negra, que já palestrou na Universidade de Harvard, propôs que se olhasse para o lado para perceber o racismo na sociedade (a plateia era composta por membros da elite brasileira; praticamente todos brancos). Qual é a ironia? O próprio Google podia adotar a mesma postura dentre seus funcionários, majoritariamente brancos – especialmente no escritório brasileiro. Indo além, o YouTube também poderia olhar para o próprio umbigo. Dentre os youtubers de maior expressão no mundo (novamente, em especial no Brasil), praticamente não há negros ou gays. No site que prega a diversidade, predominam homens, brancos e héteros na liderança.

O que se leva, portanto, da nova mensagem do YouTube é o seguinte: “já dominamos o que existe de mais fútil na vida das pessoas; agora é hora de entrar em assuntos sérios”. Fica, contudo, um receio: quão diverso pode ser um mundo no qual, num futuro bem breve, umas poucas empresas estadunidenses (dá para contar nos dedos das mãos – Google, Facebook, Netflix, Amazon e mais umas poucas outras) podem controlar todo tipo de informação que circula pelo planeta?

Em tempo: os mais inocentes podem argumentar que o YouTube vai na direção determinada pelos usuários, tanto quem faz, os youtubers, quanto quem vê. Nada disso. Claro, o sucesso na internet pode ocorrer de forma completamente fortuita. No entanto, o mais comum é que as plataformas que mandam no online guiem, como mais uma vez demonstrou o Google com seu show do YouTube, quem terá (ou qual tipo de pessoa, no mínimo) essa “sorte” de alcançar fama e fortuna.

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